A Lista Negra, de Jennifer Brown

            "O livro é muito bom. De uma vida adolescente clichê, saiu um enredo criativo e cheio de emoção, mas principalmente despretensioso ao mesmo tempo. Não faz arrancar lágrimas, mas em compensação a leitura não fica pesada ou cansativa." Essa foi minha impressão durante as primeiras 100 páginas do livro. Como me enganei! Não apenas derramei algumas lágrimas, como em determinados momentos do livro, mais frequentes a cada capítulo, eu me debulhava em qualquer lugar - isso porque acabei carregando esse livro pra todo canto. 
              Desde "Precisamos falar sobre o Kevin" que livros com a premissa de "assassino-em-massa-na-escola" me interessa bastante - apesar de ter ressalvas a respeito do livro da Lionel Shriver. Apesar disso, torci o nariz para "A Lista Negra" logo de cara, com sua capa "teen" que contrastava tanto com o enredo. Outro engano. A capa evidencia perfeitamente o estilo do livro, que, embora relate uma história pesada e intensa, ao mesmo tempo possui uma narrativa despretensiosa, que fala a língua de todos os leitores de forma direta e sem firulas - o que me foi outra surpresa agradável, já que não suporto aqueles autores que narram com a pretensiosidade de quem acredita que sua história seja o último M&M do pacotinho. 
               Jennifer Brown conseguiu, em seu primeiro livro, falar sobre adolescentes de uma forma simples e ao mesmo tempo refletindo suas complexidades, retratando-os enquanto seres pensantes. A Valerie é sua personagem principal e não poderia ter sido melhor construída e articulada. A menina de 16 anos namorava Nick e junto com ele era alvo de bullyings constantes na escola (tipicamente americana). Apesar disso, e a própria Valeria percebe isso ao longo de seu crescimento durante a narrativa, ambos não era exatamente excluídos. Não faziam parte dos grupos sociais de "elite" da escola, mas tinham amigos e seus lugares na rotina estudantil. Em um dia especialmente ruim, Valerie escreve o nome das pessoas que ela não gosta em um caderno, e não somente de pessoas - fato solenemente ignorado por todos após a tragédia - mas de tudo que ela não gostava no mundo. Apaixonada pelo namorado, eles dividem o que batizam de A Lista Negra, como uma espécie de desabafo, de escape e protesto silencioso contra os problemas que enfrentam diariamente. 
                  Acontece que em algum momento, a lista deixa de ser brincadeira para Nick e em um dia inacreditavelmente ruim, ele abre fogo na cantina do colégio contra as pessoas cujos nomes figuram nela. A Valerie acaba baleada ao parar o tiroteio e Nick se mata com um tiro na cabeça. A partir daí o livro poderia ficar extremamente dramático se não fosse a mão de fada da autora. Ela soube pesar perfeitamente todos os ingredientes para compor a história. O foco não é a tragédia, mas a vida da Valeria depois. Como ela se readapta a sua rotina (que nunca mais será a mesma) e a maneira como ela lida com a culpa que sente por si mesma e a que descarregam nela. A pergunta que paira a narrativa inteira, tanto para o leitor, quanto para os personagens e até mesmo na cabeça da própria menina é: Heroína ou Culpada? 
            O fato de que ela não sabia da intenção de Nick não impede que a Valerie seja investigada como suspeita, e mesmo após ser absolvida, julgada culpada pelo resto do mundo. O que me impressionou mais no livro foi o modo como os personagens são retratados de forma humana. Fica claro que a Val não é alguma coitadinha, mas é impossível não sentir pena dela; assim como é impossível não sentir afeto e pena de Nick. Seus amigos lhe viram as costas, abrindo espaço para que antigos inimigos sejam percebidos de outra forma - para melhor e para pior. Na terapia, Valerie aprende a observar melhor ao redor e dentro de si. Ela troca a lista negra por um caderno negro de desenhos que externam suas novas percepções do mundo. 
                        
        Na excelente construção dos personagens, destaco os pais da Valerie. Casa problemática, pais que se odeiam e que são os primeiros a duvidar dela na tragédia. Foi chocante para mim e acredito que para a maioria dos leitores, o modo como o pai a acusa explicitamente, a abandona emocional e fisicamente e ignora sua participação, mesmo que de modo virtual no que ocorreu na cantina do colégio. A mãe a acusa silenciosamente, enquanto chora pelos cantos o fato de ter abandonado sua vida por uma filha problemática. Começo a chorar, mais ainda que a Val, quando a menina percebe que seus pais não a querem proteger do mundo, mas querem proteger o mundo contra ela.  
            A Jennifer capta e transmite perfeitamente a essência adolescente dessa menina forçada a crescer abruptamente e a lidar com os monstros interiores que todos nós temos, mas que geralmente ficam bem escondidos até sumirem por si mesmos. A Val teve que abrir-se do avesso à todos, e descobrir quanto de tudo aquilo seria responsabilidade sua. Durante a leitura, apesar de morrer de pena da menina, me peguei pensando o quanto era injusto da parte das pessoas ao redor tratá-las como culpada, afinal de contas, havia uma lista com nomes de pessoas que realmente morreram escritos com sua letra - apesar de que não foi ela quem puxou o gatilho da arma. O final é sensacional. Qualquer outro final para Valeria seria utópico e mancharia o brilhantismo de sua história.
 
                  As discussões levantadas são maravilhosas. Ninguém é ruim, ninguém é bom. Essa é a grande diferença entre os adolescentes da Jennifer e os desenhados por outras autoras. Todos são pessoas comuns buscando seu rumo, colhendo os frutos de suas escolhas e atitudes.

                 
 
                   
 

Asas, de Aprilynne Pike


         Sabe aquele tipo de livro que você não sabe como conseguiu chegar ao fim? Lastimável.

        "Asas", confesso, me consquistu pela capa e pela promessa de filme da Disney. Associei esses dois elementos com uma história de fadas divertida e leve. Achei que se tratasse de uma misturinha com pegada Sininho+romance+aventura. Terrível engano.

        O livro é vazio. Assombrosamente desprovido de qualquer tipo de graça, "Asas" fala sobre uma menina mais sem graça ainda que em não tão belo dia acorda e descobre-se acometida por um estranho caroço nas costas, que desenvolve-se ao longo de alguns dias e transforma-se em uma flor. "Flor? Ué, cadê as "ASAS" da suposta fada?". Também não sei. A verdade é que me senti enganada, ludibriada e iludidade. De forma alguma há fadas nesse livro. São plantas. Isso mesmo. Plantas superdesenvolvidas com flores nas costas fazendo as vezes de asas.

         Como se já não bastasse essa decepção, ainda cai sobre o pobre leitor com a essa miserável experiência de leitura, uma narração pobre de um livro "YA - Young Adult" genérico sem qualquer esforço de ser um entretenimento divertido. O livro é chato e clichê - narrado por uma menina boba e burrinha, típica. A Laurel cresce sem saber de suas origens, no seio de uma família adotiva - após ter sido abandonada na porta do casal -, e só descobre a verdade quando a flor nas suas costas resolve dar o ar de sua graça. A menina tem por volta de uns 15 anos e a narração é bem nesse nível. 

           Romance, nesse volume, ainda não foi desenvolvido, ou pelo menos não foi o foco. Mas já deu para entender que a "fadinha/plantinha" entrará em um originalíssimo triângulo amoroso - entre um grande amigo humano com quem compartilha seu segredo e outra plantinha que ela descobre ser um dos Guardiões do Portal de Avalon. Pff triplo. 

       David (a ponta humana do triângulo) é amplamente explorado pela menina/planta/fada/esquisita, que se aproveita da eminente paixonite do garoto para realizar "experiências científicas" com seu DNA e descobrir do que se trata aquela aberração em suas costas. A partir daí os absurdos científicos se sucedem de modo até mesmo ilário. Há uma cena, inclusive, em que os dois personagens trocam os gases liberados por suas respirações para não se afogarem. Sério, ela respira CO2 e ele o exala. E vice-versa com o O2

           Se parecer interessante para você, mude de ideia. Não perca seu tempo. A não ser que você tenha por volta de 12 anos e não tenha nada melhor para ler - ou queira descobrir mais sobre botânica (?) - vai saber. Mas, enfim, é melhor me divertir com as aberrações do livro que me lamentar eternamente pelo tempo perdido. 

            A Bertrand Brasil, apesar de errar na escolha do conteúdo, não vacilou na edição. A capa é belíssima, mas o mérito da editora consiste em apenas manter a original. Erros de digitação/tradução não me lembro, logo se há, não é algo muito "incomodante". Quanto ao filme, deste nunca mais ouvi falar
           E as continuações? Não, obrigada.

Branca como o leite, Vermelha como sangue ... e chata como um chá morno

               Apesar de ter lido este livro apenas em uma tacada, não foi por estar amando-o. A capa é maravilhosa, simples, te convida a conhecer a sinopse. A sinopse te instiga a conhecer a história e assim passei um bom tempo desejando esse livro. Mentira: desejei o livro só porque a menina é ruiva.


          Finalmente quando o tive em mãos (através do grupo Livro Viajante do Skoob), a expectativa era grande e sentei com vontade, mas a decepção foi maior ainda. A história é, como posso classificar da melhor maneira possível, morno. Isso mesmo, morno, morninho, beirando o chato. Na verdade, só não se tornou enfadonho por causa da narrativa que é bem fácil e corrida. 

                 O narrador é o personagem principal, Leo. Ele se auto-intitula o "leão", e adora exibir sua juba por aí. Se considera corajoso, rebelde e livre. Pff. É apaixonado platônicamente por Beatriz - a ruiva, a Vermelha. Ah sim, Leo classifica tudo através de cores. Beatriz é Vermelha, porque seus cabelos são vermelhos e ela é a paixão. A Vida. Mas Beatriz também é Branca, pois o branco é o desespero, é o Nada, é o fim. Leo tem também, além desta paixão fulminante, um outro tipo de amor, o Azul, por sua amiga Sylvia. A presença da menina é constante e logo percebemos o seu papel na vida de Leo e seu lugar cativa na "friendzone" do cara. 

                Eu sei que falando assim parece uma história linda, lírica e interessante. Mas não se engane assim como eu. A história gira em torno desse amor platônico e é bem óbvia, repetitiva e previsível, apesar de ser mascarada de um pretenso lirismo e drama através da narrativa

                O link entre o título e o enredo é fantástico, num débil ponto positivo. Num dado momento descobrimos que a Beatriz tem uma séria doença que a transforma em uma contradição de branco e vermelho que confude e atormenta Leo, tornando-o mais chato. Sim, porque o protagonista é bem chatinho - obtuso e até mimado. Vive querendo o mundo inteiro, enquanto não enxerga nada realmente em volta, perdido (e prendendo o leitor junto) em pensamentos e reflexões inacabáveis e sem sentido. 

               Os diálogos do livro também são pretensiosos e irreais. Uma hora refere-se à vida comum de um adolescente, outra é denso e cheio de "significados. Aliás, o teor da história oscila bastante entre esses dois lados. Parece legal pra você? Não é. Esse livro e tudo o que achei dele me lembrou muito outro, "Cidade Mágica", que odiei mais ainda. E são realmente muito parecidos em estrutura e narração.

                Apesar de tudo, acabo de perceber que a sinopse pelo menos é tão interessante que vale a pena a leitura. Eu não gostei, mas quem sabe o interesse permanece com alguém aí até o fim? 

               A edição é boa, como sempre a Bertrand não deixa nada a desejar. A capa é belíssima em sua simplicidade e não me lembro de um só erro de digitação ou concordância durante a leitura.