Poderia ser uma das artes mais complexas do mundo traduzir-se em palavras. Tão difícil quanto lembrar de todos os momentos de uma vida, seria descrever os poucos que permanecem. Há ainda a crença frustrada de que aquilo que se acha é seu; de que o que se constroi permanece; ou mesmo que basta a vigília constante e dedicada para conservar o abstrato.
O pensamento, o brilhante, abstrato, nos pertence por não mais que alguns poucos instantes – não importa a duração, o tamanho ou a intensidade, desaparece, dependendo apenas da capacidade não-confiável da mente de reunir mais uma vez as centelhas do que já era perdido. A fala por si depende, senão, tão somente da audição do outro. Ora, se do próprio raciocínio lógico o abstrato nos foge, o que não sofrerá sendo gastado, ralado, usado, até a beira dos confins da mente do que apenas ouve, e, em vão, simultaneamente tenta assimilar?
Enquanto as palavras e ideias são perdidas num processo contínuo, estúpido e inútil de fala e audição, pensamento e distração, a palavra escrita permanece reunindo pelos cantinhos os restos jogados fora.
